Uma greve deflagrada por reajuste salarial, que paralisa as operações da fábrica da Embraer em São José dos Campos desde quarta-feira, ameaça a produção da empresa e coloca em xeque a política industrial no Brasil. A manutenção da greve será discutida numa assembleia marcada para as 9h de hoje, e o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Antonio Ferreira de Barros, promete ir à Brasília cobrar da presidente Dilma Rousseff uma solução para o conflito e cobrar a geração de mais empregos pelo setor aeroespacial no país. De acordo com o sindicato, esta é a primeira greve por tempo indeterminado deflagrada na Embraer desde a privatização da empresa, em 1994.

 

 

Barros afirma que, além de reajuste salarial, os trabalhadores querem que o governo se comprometa com a nacionalização dos projetos financiados com recursos públicos. Segundo ele, o governo está financiando a criação de empregos fora do país, inclusive para o projeto federal mais ambicioso, o desenvolvimento do avião de transporte militar KC-390, considerado a maior e mais sofisticada aeronave já fabricada no país.

 

 

A Embraer foi a empresa privada com maior volume de repasses do governo federal em 2013. De acordo com números do Portal Transparência, foram repassados R$ 1,113 bilhão em 2013. Este ano, o valor chega a R$ 1,030 bilhão. Nos últimos anos, os repasses federais para a empresa têm sido crescentes: foram R$ 256 milhões em 2010, R$ 430,5 milhões em 2011 e R$ 710,3 milhões em 2012. Apenas o desenvolvimento do KC-390 custou R$ 4,9 bilhões, e o governo federal vai desembolsar R$ 7,2 bilhões para adquirir 28 unidades.

 

 

— Queremos a nacionalização da produção do cargueiro. A indústria aeronáutica no Brasil está sendo desmontada, pois as encomendas que eram feitas na região são agora feitas em outros países. A Embraer é a empresa que mais recebe dinheiro público. Queremos conversar sobre isso com a presidente Dilma e com o Ministro da Defesa — diz o sindicalista, que promete realizar protestos em aeroportos do país.

 

 

Componentes metálicos do KC-390, como painéis de revestimento e longarinas das asas, vão ser fornecidos pela fábrica construída pela Embraer em Évora, em Portugal. Localizada em Alverca, a fábrica da Ogma — empresa da qual a Embraer detém 65% do capital, tendo como sócio o governo português — fornecerá a fuselagem. Em maio, a imprensa portuguesa anunciou a entrega da peça, de 10,5 metros, e anunciou que a Ogma faria também os Sponsons, com cerca de 12 metros de dimensão, que compõem a carenagem do compartimento do trem de aterragem.

 

 

Os empregos gerados pela Embraer no exterior ainda são modestos em relação ao Brasil. Mas as vagas lá fora estão em expansão. Entre 2009 e 2013, o número de empregados no Brasil aumentou de 15.952 para 17.302 — uma alta de 8,46%. No exterior, passou de 901 para 1.976 no mesmo período — 119% a mais. A Ogma emprega 1.567 pessoas em Portugal, segundo o balanço de 2013 da Embraer.

 

 

O sindicato teme que o polo de produção aeroespacial em São José dos Campos seja prejudicado com a internacionalização da empresa, que levou partes de aeronaves para serem feitas lá fora.

 

Responsável por mais de 50% das exportações de bens de alta tecnologia no Brasil, o setor de aviação mantém saldo positivo na balança comercial, mas o comportamento das exportações foi o inverso das importações em 2013. Enquanto as vendas externas caíram 0,57%, as compras aumentaram 2,2%.

 

 

Companhia vê prejuízo a clientes

 

 

Os metalúrgicos reivindicam entre 9% e 10% de aumento salarial. Em nota encaminhada ao GLOBO, a Embraer informa que as empresas do setor aeroespacial se reuniram na última sexta-feira e ratificaram a proposta de reajuste de 7,4%, apresentada aos sindicatos que representam a categoria em São José dos Campos, Gavião Peixoto, Sorocaba e Taubaté. Segundo a Embraer, a única alternativa para o impasse é a Justiça do Trabalho. A empresa não quis se pronunciar sobre a reivindicação de nacionalização do KC-390. O projeto do avião militar tem parceria de Argentina, Portugal e República Tcheca, com o objetivo de aumentar seu alcance no mercado internacional.

 

 

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos é filiado à CSP-Conlutas. A Embraer afirma que os sindicalistas vêm impedindo o acesso de trabalhadores a áreas de operações críticas, que afetam a entrega de aviões e até mesmo o atendimento a clientes. “Os danos potenciais não afetam negativamente apenas a empresa, mas seus clientes, fornecedores e empregados”, afirmou a Embraer em nota. Um grupo de funcionários, dispostos a entrar para trabalhar, estariam combinando vestir azul na manhã de hoje — a cor do logotipo da empresa.

 

 

Em agosto, o Ministério da Defesa lançou o Inova Aerodefesa, incentivo para desenvolvimento de produtos e projetos, no valor de R$ 291 milhões, que poderão ser aplicados em estudos, absorção de tecnologias, sistemas de vigilância e supervisão de bordo. A Embraer é uma das beneficiadas.

 

 

 

FONTE: O Globo, 10 de novembro de 2014; fetraconspar.org.br